quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O barquinho de Papel

Sou um eterno apaixonado pela vida, nas mais diversas formas de se viver. Às vezes a vida nos surpreende de forma que ficamos muitas vezes sem ação imediata. Ah, a vida! Cheia de surpresas, instabilidades... Mas quem disse que estar instável é estar prejudicado? A vida é bela, a vida é inteligente... Nós é que somos complicados, cheios de desejos e ao mesmo tempo cheios de restrições.
Temos que aprender a conviver melhor com os chamados “altos e baixos” da vida. Temos que aprender a olhar pelo lado bom das coisas, por mais desagradáveis que elas pareçam no começo, mas que na verdade aparecem com a finalidade de nos ensinar novas lições, nos fornecer novas experiências e muitas vezes acontecem com o propósito de nos livrar de algo pior que talvez viesse a acontecer.
Creio que seja necessário a todos amar o que lhes pertence, lutar pelo que se deseja e acima de tudo agradecer pelo que lhe foi concedido. A vida sabe o que é melhor para nós, mas ela não age sozinha, precisamos entrar mais em sintonia com a nossa própria vida. Se algo nos faz bem agora, saibamos aproveitar e reconhecer aquele momento tão agradável da nossa vida, não tenhamos vergonha de ser feliz.
E então chega certa segunda-feira, um dia que é condenado por muitos como o pior dia da semana, mas que na verdade deveríamos agradecer por mais uma semana, como seria melhor ainda agradecer todos os dias. Quanta ingratidão a nossa, reclamar por ter algo para se realizar e se colher resultados futuros pro nosso próprio bem... Vai entender.
Mas foi justamente em uma manhã de segunda-feira, que eu fui acordado com uma mensagem divina, intuitivamente passeando pelos meus pensamentos, que eu consegui ouvir alguém dizendo: “Olá, você que acredita na paixão, num possível amor, hoje é o seu dia de se dar uma chance. Tente conquistar aquela pessoa que você gosta. Vamos lá, você consegue.” Na verdade era a previsão do horóscopo do dia para o signo de Touro. Adivinha qual o meu signo? (Risos...)
Qual não foi a minha agradável surpresa em acordar antes do alarme tocar, calmamente, com uma mensagem dessas, e ainda por cima, ter a chance de poder realizar minha primeira atividade do dia, que foi dar um “Bom dia!” para alguém que tem conseguido fazer a diferença neste período. E que momentos mais tarde eu viria a ter um passeio matinal pela cidade a fim de me conectar ainda mais com esse ser especial.
E foi então que em algum momento deste passeio, eu me deparei com um bolo de papel amassado. E ao pegar no bolo papel, pensei em desamassá-lo e escrever alguma coisa, só que no momento não tinha inspiração para escrever nada. Mas queria fazer algo pensando na mensagem que havia recebido mais cedo, e foi então que me lembrei de alguns estudos que havia feito há um tempo.
Desde os tempos mais antigos, na China, se fala sobre o poder que o ser humano possui para controlar suas emoções e desejos através da força do pensamento, da concentração e da realização de simples ações que podem transformar uma vida. É quase uma definição pra Fé.
Um dos meios utilizados pelos chineses foi a criação do Origami, que significa: Dobrar papel. É uma arte que demanda concentração, força do pensamento em controlar cada gesto minucioso que se faz necessário para concretizar a confecção do que se deseja e, além disso, pode ser utilizado como uma representação de afeto ao próximo.
Existem vários modelos e objetos que se pode criar, mas como eu não sei criar muita coisa através de Origami, resolvi optar pela “realização de coisas simples” proposta pelos próprios chineses. Mal sabia eu que conseguiria relacionar um dia inteiro com uma pequena folha de papel, antes amassada, agora no formato de um barco. E então comecei a confeccionar o barquinho de papel. Neste momento, enquanto dobrava o papel, ouvi uma música que falava sobre um beija-flor, e a capacidade que ele tem de andar por aí espalhando o que ele consegue carregar.

Foi quando me veio uma idéia sobre o que fazer com tal barquinho, uma vez pronto. Ao pensar na liberdade do beija-flor e como ele consegue levar as coisas consigo até um ponto que não se sabe onde pode chegar, resolvi cria um propósito pro meu barquinho. Lembrei-me mais uma vez da mensagem recebida logo cedo, e decidi presentear este barquinho a uma pessoa, mas de forma que pudesse traçar um objetivo. Desfiz uma das dobras e dentro do barquinho escrevi as iniciais dessa pessoa, e por fora coloquei as minhas, simbolizando que a partir daquele momento específico, aquela pessoa estaria dentro de mim, e que caberia a ela dar o rumo neste “Barquinho de sentimento”. A diferença é que eu não poderia falar nem insinuar nada a tal pessoa, nem mesmo presentear de forma clara, iria somente deixar o barquinho em sua posse e perceber qual seria sua atitude em relação ao barco. Observaria qual o rumo ele iria tomar. Poucos instantes depois, como planejado, deixei o barquinho sobre posse desta pessoa sem que ela percebesse nenhuma intenção em realizá-lo.
Passadas algumas horas, percebi o tempo fechar e a chuva se aproximar. E imaginei: “Seria ótimo ver este barquinho assim como o beija-flor, livre, com seu rumo indefinido, mas certo de que será bem direcionado pela força da natureza. O beija-flor pelos ares, e o barquinho pelas águas.” Mas também fiquei na dúvida com relação ao que poderia acontecer a ele.
Algumas pessoas quando pegam em um barquinho que papel, querem fazê-lo flutuar pelas águas, outros o destroem como se fossem um pedaço de papel qualquer, outros ainda as vezes abrem o barquinho para poder ver qual a origem daquele papel...Isso tudo passou pela minha cabeça e fiquei imaginando o que ela poderia fazer e como eu perguntaria sobre o barquinho sem insinuar nada.
Como previsto, a chuva caiu forte durante muito tempo. Vale lembrar que o dia pela manhã estava extremamente abafado, um clima muito quente, alta temperatura. E que ao se iniciar a tarde, houve essa mudança quase que instantânea. Mais uma vez pensei em como o dia estava passando, e tentava ligar os pontos. Foi então que recebi um telefonema desta mesma pessoa, que estava vindo ao meu encontro.
A chuva havia dado uma trégua neste instante, e assim que me encontrei face a face com esta pessoa percebi que o barquinho ainda estava em suas mãos, e fiquei um pouco aflito e aliviado ao mesmo tempo em perceber que o barquinho não havia tomado rumo nenhum ainda. Neste momento percebi o início repentino da chuva, com muita força, de forma a criar pequenas enxurradas pela rua. E pouco antes de se despedir, esta pessoa me pergunta se seria possível que eu colocasse o barquinho para que ele pudesse andar pelas águas, mas o meu desejo era que ela o fizesse, e que teria que ser por livre e espontânea vontade, como prometido a mim mesmo ao criar o barco, eu não poderia interferir e pedi-la para realizá-lo.
Para minha alegria, uma das “manias” desta pessoa se revelou como uma grande surpresa naquele momento. Por ser muito agoniada em querer realizar tudo de forma rápida, às vezes sem esperar um momento certo, ao perceber minha falta de resposta imediata em relação ao barquinho de papel, ela mesma o tomou nas mãos e falou: “Não, deixa que eu coloco.”
Neste momento, me arrepiei todo, tomado por uma sensação extraordinária de leveza, alívio e expectativa ao mesmo tempo. Fiquei com muita vontade de lhe dizer tudo o que tinha acontecido naquele dia, mas me segurei, pois o dia ainda não havia terminado e eu não queria precipitá-lo.
Momentos depois, eu ainda bestificado de alegria com a situação concretizada, resolvi relatar e tentar, por mais de difícil, arquivar em uma história, os detalhes, ligações, sentimentos e reflexões do feito “barquinho de papel”, e mais uma vez me deparei com uma mensagem na internet que me ajudou a firmar minha expectativa:

"Viver é como navegar em um "Barquinho de Papel", sabemos que ele vai afundar! O importante é aproveitar da melhor forma possível enquanto ele estiver flutuando."
Roberto Böell Vaz

E estou eu aqui, na mesma segunda-feira ainda, a noite, refletindo com leveza sobre como foi o dia hoje e como poderá ser o amanhã se fizemos as coisas acontecerem, e não esperar tanto que aconteçam sozinhas.

Heryck Almeida Santos

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